terça-feira, 21 de abril de 2015

Realidade periférica


A gente aqui sonha, mas lida com enchente causada pelo valão da rua de trás. Sonha, mesmo tendo que estudar, trabalhar e procurar bicos e conseguir mais dinheiro para pagar as contas. A gente aqui sonha, mas pega o Japeri lotado às 5:50 da manhã e somos subordinados a ficar imprensados, sem conseguir se mover, e ver a cada estação entrar mais gente e assim a lágrima percorre o rosto cansado. A gente volta pra casa de trem ainda cheio, e raramente senta para terminar de ler um livro ou descansar daquela fraqueza corriqueira que bate por não ter almoçado direito. A gente rola a catraca, e transita na passarela buscando sentido entre tantos olhares perdidos na multidão de gente simples e guerreira. A gente aqui sonha, mas as vezes pensa que deve parar quando vê o semblante desesperado do chefe de família por não ter como comprar a mistura do almoço daquele dia. A gente aqui sonha, mas tem sempre o suor na testa, a lágrima nos olhos e as mãos calejadas da inchada que usamos para capinar nossos quintais, terrenos e calçadas.
A gente sonha, entre casas de telha, casas sem embolso, ruas sem asfalto e sem saneamento básico. Somos de vida dura, imigrantes nordestino, negros, brancos, pardos. A gente sonha na nossa luta diária. A gente sonha, sonha tanto que um dia ainda vamos conquistar o mundo, apesar de tudo.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

TARDE SERENA


Deixo os sapatos na lavanderia e corro descalça, na ponta dos pés como tenho costume, até seu quarto. Te espero sentada na beirada de sua cama. Quando chega, me abraça e tenta me tirar um beijo. Dai que te empurro para trás e peço que fique parado, bem na minha frente. E assim te olho, te aprecio, me arrepio de amor e de admiração. Lindo! Sim, és lindo e de tão lindo me dói. Enxugo a lágrima que subitamente escorrem até meu colo. Me sacio de te olhar e então te deixo chegar, se ajoelhar e descansar a cabeça sobre mim. Entre os afagos em seu cabelo e as enxugadas das lágrimas que teimam em cair, continuo te apreciando. E em poucos tempo, serenamente, adormeces em meu colo. E eu sonho acordada ao te ver dormir.

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