sexta-feira, 18 de abril de 2014

Ex- Estranha

 Três toques:

- Pode entrar!
 Disse professor Gerson para a nova aluna do Curso Pré Vestibular.

- Essa cadeira tá ocupada? - Perguntou a aluna nova, Manuela, se referindo a cadeira em frente a de Nathalia. O professor acenou dizendo que não e ela foi de cabeça baixa, apertando as duas alças da mochila e se dirigiu de forma tímida até o lugar vazio. Nathalia não tirava os olhos da nova aluna. Cabelos longos de tom alaranjado, pele cheia de sardinhas, uma mochila com bottons de todos os filmes e bandas que a nova aluna gostava. Entre o intervalo de uma aula e outra Nathalia aproveitou para puxar assuntou:

- Que legais, onde você os comprou?- Perguntou se referindo aos Bottons.
- Em uma livraria que frequento.

   Voltou pra frente e ficou olhando para o quadro vazio. Ela não queria chamar atenção da turma e sentia que a aluna de trás não tirava os olhos dela da cabeça aos pés. Com um toque nas costas, Nathalia se apresentou e perguntou como a novata se chamava: Manuela! - Respondeu com um sorriso de canto de boca.

Nathalia é uma jovem séria, cheia de dúvidas sobre o futuro e adora tudo que a instiga. A segunda aula chegou ao fim e a novata pegou sua mochila de bolinhas e se retirou da sala. Dois tempos de aula por dia. Era assim que o curso funcionava. Nathalia foi imediatamente atrás tentando guardar o caderno com seus passos rápidos para acompanhar Manuela até as escadas. Conseguiu alcançar e mais uma pergunta:

- Você mora longe daqui?
- Não, eu chego em 10 minutos. Vou a pé mesmo, acho que não tem perigo a essa hora!
- Que inveja, já eu tenho que pegar um ônibus - E as duas sorriram.

          Nathalia queria continuar aquela conversa e poder se aproximar mais da aluna que chegou no meio do ano e tinha um jeito de se arrumar que causou estranheza em todos da turma.  No dia seguinte, Nathalia decidiu perguntar se ela não gostaria de pegar o seu caderno emprestado para tirar xerox de toda matéria perdida. Manuela achou a ideia ótima e soltou outro sorriso tímido. Perguntou se havia problema delas irem pra casa dela, pois assim poderia fazer as cópias e devolver o caderno naquele mesmo dia. Chegando na casa de Manuela, os olhos de Nathalia não paravam de observar tudo aquilo que formava o universo da jovem estilosa. No quarto ficou encantada com cada quadro, com a estante cheia de livros, miniaturas e filmes. Olhava cada detalhe daquela decoração retrô e colorida. Seus olhos não deixavam passar nada despercebido. As duas conversaram e se conheceram mais. O jeito de falar de Manuela encantava e mexia com Nathalia de forma descomunal. Enquanto Manuela fazia as cópias, Nathalia ficou com o olhar penetrado na maneira como ela pegava no seu caderno, o modo como arrumava o cabelo, seu corpo e suas tatuagens de andorinhas na batata da perna que a fazia querer descobrir onde mais haveria de ter outras. Olhava fixamente e tentava não demonstrar mas era em vão. Manuela era muito esperta e amorosa. Sabia quando alguém estava a olhando de forma como quem contempla uma obra de arte. Nathalia continuava conversando e falava sobre o curso que tentaria no vestibular. Ela gostaria de fazer Medicina, por desejo de sua mãe. Já Manuela, tentaria História da Arte.

Enquanto terminava de fazer as cópias, Manuela revelava uma expressão de angústia e perguntou se ela não poderia ficar com o caderno e depois ela devolveria. Nathalia perguntou o motivo e Manuela disse que só estava preocupada com o horário de Nathalia ter que pegar o ônibus tão tarde. Nathalia se sentiu triste pois queria ficar mais perto daquele universo novo, daquela criatura de jeito misterioso mas sabia que a cidade não estava muito calma para uma moça sair sozinha à noite e pegar o buzão que levaria um tempo para chegar ao ponto e mais uns 15 minutos até deixá-la em sua casa.

- Quer dormir aqui?- Perguntou Manuela de forma súbita e deixando a moça morena sem resposta.
- Podemos terminar de fazer as cópias e depois assistir a alguns filmes, caso você queira. - Continuou Manuela com aquele olhar doce e atraente.

    Nathalia aceitou, mas disse que ligaria para casa pois a mãe era muito controladora e ela não tinha costume de dormir fora. Meia hora depois, Nathalia já havia ligado e mentiu para a mãe que era aniversário de uma amiga do curso e que os pais queriam que ela ficasse por lá para curtir a comemoração. Dona Adelaide acreditou pois, afinal, Nathalia sempre foi uma filha responsável, obediente e nunca havia feito nada que a contrariasse.

Manuela trouxe uma camisola de bolinha limpinha e deu para Nathalia colocar após o banho. Ela mostrou o caminho do banheiro e disse que não precisava ficar envergonhada, pois sua mãe estava no quarto caída de tanto beber, e seu pai tinha sumido haviam 3 anos e que ela podia ficar à vontade.

Nathalia tomou banho sentindo muita adrenalina por estar na casa de uma menina que havia conhecido há pouco tempo e sua consciência pesou por ter mentido para sua mãe. Após sentir uma leve vontade de ir embora, percebeu que o melhor seria passar a noite ali mesmo, pois já estava muito tarde. Durante o banho sentia o cheiro do sabonete e esfregava-o levemente pelo corpo. Estava sentindo aquele mesmo cheiro de Manuela. A estranha que era tão enigmática e atraente. Terminou o banho, secou-se e colocou sobre o rosto a camisola fofa de bolinha, cheirou e sorriu, estava ali mais um pouco de Manuela. Vestiu-se e voltou para o quarto com semblante de preocupação e angústia. Manuela, que havia tomado banho no quarto de sua mãe, estava sentada na beira da cama aguardando Nathalia.

 Ao entrar no quarto, Nathalia foi indagada sobre o que estava acontecendo. Então sentou-se ao lado de Manoela, e com a vontade de desabafar, jogou o corpo para trás caindo na cama de solteiro e olhando diretamente para o teto. Estalava compulsivamente os dedos de nervoso e respondeu que era primeira vez que dormia fora de casa. Disse que mentir pra mãe também não era comum e que estava incomodada de estar na casa de uma estranha. Nathalia recebeu um longo carinho nas mãos e aos poucos foi se acalmando. Manuela deu um impulso para trás, deitando ao lado de Nathalia. As cabeças se viraram uma para a outra e os olhos se confortavam, uma estava triste com a vida e a outra cheia de vontade de viver e de descobrir o mundo.

Manuela, a moça diferente, olhou todo o rosto de Nathalia, causando-lhe vergonha e logo sentiu seu corpo estremecer. Manuela achou os olhos castanhos de Nathalia muito atraentes. Sua pele morena e seus longos cabelos negros ondulados davam a ela um ar de moça sexy. Manuela disse a Nathalia que estava tudo bem, e logo as duas sorriram. Os lábios rosados e as pintinhas de Manuela atraiam Nathalia. Seu coração parecia que iria sair pela boca. Nunca sentiu nada parecido por outra menina. Aquele quarto e aquela figura em sua frente eram muito interessante.

Aqueles cabelos ruivos de tons alaranjados combinados com a pele clara traziam paz e suavidade em sua alma. Nathalia tão inexperiente com a vida, com seu corpo, com as sensações, não conseguiu resistir. Sentia seu corpo quente e cheio de vontades. Seus olhos olhavam fixamente em direção a boca da bela ruiva desconhecida. Manuela retribuía o olhar e o desejo da bela morena que trazia consigo um jeito tímido e ingênuo. Manuela passou a língua sobre os lábios e passou as mãos no cabelo de Nathalia. Acariciou seus rosto e foi para cima de Nathalia em direção ao beijo. Nathalia se esquivou virando o rosto rapidamente e manteve-se assustada. Seu coração estava muito mais acelerado e a possibilidade de beijar outra menina nunca havia passado por sua cabeça.

Já Manuela estava desejando demais aquele lábios. Seus corpos colados faziam os seios encostarem aguçando mais os sentidos das duas. Manuela, envergonhada, se direciona para sair de cima de Nathalia mas é impedida. Que a puxou pelos braços, e sobre ela se debruçou beijando-a lentamente. Os lábios e as línguas pareciam dançar ao ritmo de uma bela valsa. Sentiam o prazer e beijavam-se de forma delicada, as mãos passeavam pelos rostos uma da outra como quem deseja conhecer algo, explorar o desconhecido.

As duas, entre cada beijo, trocavam carinhos e olhares. A forma delicada que Manuela tocava em Nathalia, tão cheia de carinho e delicadeza, a deixou com um tesão enorme. Uma foi tirando a roupa da outra. Nathalia tão curiosa, estava entregue ao novo, se deixou levar sem hesitar. Rendeu ao encanto da desconhecida, e não falou mais nada naquela noite. Nathalia sentira o prazer que nunca antes sentiu com nenhum dos poucos rapazes que havia se envolvido. Descobriu que não só suas mãos podiam satisfazê-la mas que haviam outras duas mãos, cheias de pintinhas e com esmaltes vermelhos, que poderiam levá-la ao céu.

Só dormiram quando o dia estava amanhecendo. A noite foi longa para as duas. Manuela se apaixonou pela moça morena cheia de curiosidades. E Nathalia por sua vez, conheceu sua nova face e o desconhecido lado de si. Sentiu, então, o amor em uma ex-Estranha.

domingo, 13 de abril de 2014

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A palavra engasgada não saí. O gesto desejado não saí. As lágrimas escorrem pra tentar por para fora essa imensidão de sentimento não compartilhado.

sábado, 12 de abril de 2014

CAMISOLA BRANCA DE CETIM

Vesti minha camisola branca de cetim comprida. Me maquiei e saí descalças pelas ruas da cidade. Temia mas não conseguia resistir àquela vontade enorme de me arriscar. Fui dançando pela calçada, passos leves, mãos para os lados, cabelos ao vento fresco da noite estrelada. Eu não estava sob efeito de nada. Não estava feliz, e muito menos triste. Eu estava buscando desesperadamente sensações de liberdade. De estar viva. De passar no meio das pessoas indo para os bares e restaurantes sentindo a estranheza ao se depararem com o meu estado de contemplação da vida. Dos olhares, dos desejos, do terror, do vento, da noite e dos pés que já mal caminhavam e começaram a se mostrarem frágeis apresentando dores. Dei meia volta e corri. Corri intensamente. De forma que pisava com mais força com os pés descalços no chão.  

Cheguei em casa e me despi bem na varanda. Empurrei a porta da sala e entrei indo em direção ao banheiro. Abri o chuveiro e fui transar com as águas. Finalizei a experiencia de fazer o que me deu na telha gozando no banheiro e me masturbando no caminho até o quarto. Me joguei na cama, estava leve e plena. Em outro universo, e adormeci. 

Acordei e percebi que tinha sonhado. Ainda na cama, passei a mão entre as pernas e eu estava molhada. Que delícia de manhã, que tesão de sonho. Despertador toca com seu barulho infernal, empurrei-o da mesinha com um tapa e logo calou-se. Levantei com minha camisola furada e atrasada para ir para a igreja. Que sensação estranha. Vou tomar café e tentar lembrar o que aconteceu. Sento na mesa e percebo que sonhei que havia sonhado que estava sonhando. Quanta confusão, repreende, senhor! 
Preciso correr para o culto pois hoje quem vai ler a palavra sou eu. Acho que vou precisar me confessar com o pastor. Que Deus me livre desses sonhos libertinos. Tá amarrado em nome de Jesus. 
Amém!  

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O dia está lindo lá fora, mas o mundo aqui dentro continua nublado!

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