sábado, 6 de abril de 2013

Memórias dos meus doze anos


  Engravidei aos doze anos de idade. Em uma relação tão confusa, tão súbita. Onde eu fui ao encontro do garoto que amava- ou achava amar, pois quando se tem doze anos não se entende o sentindo real dessa palavra- Ele me convidou para ir á sua casa através de um recado em um bilhete de papel, que pediu ao Pedro, seu melhor amigo, para me entregar na fila da cantina da escola. Era início do ano letivo, estava na quinta série. Pedro me trouxe o bilhete com um sorriso como quem se dava por satisfeito ao ter conseguido convencer o amigo que tirar meu BV seria algo bom para a sua reputação de garanhão e pegador. Pedro sabia o quanto eu gostava do Renan, mas sempre o induzia a ficar com as meninas mais bonitas e populares, a fim de que os dois pudessem se tornar os populares e desejados do colégio. Eu não contava nada a ninguém a não ser o pedro, pois ele morava na mesma vila que eu, e nas férias, finais de semana, e todo aquele tempo livre e ocioso, era com ele que eu ficava brincando e confessando meus segredos. Ele e Renan tinha a mesma idade, Quatorze anos. Eles já estavam na sétima série. E naquele dia, em que eu ia comprar um saco de milho bom e um coca, como era o de costume, Pedro me veio com o bilhete em mãos. Nele dizia: 'Bianca, eu posso te ajudar a estudar. Apareça aqui em casa assim que sair da escola. Meus pais viajaram. Beijos, Renan'.
   Pedro tinha conseguido o que eu tanto queria, fazer com que eu me aproximasse de Renan mas sem ter que ir me atirar nele. Eu enfim ficou interessado por mim! Ao ler o bilhete foi como um sonho. Eu ia pra casa do garoto que eu gostava desde quando me entendia por gente. Ele com a desculpa de que me ajudaria nos estudos, mas era óbvio que algo além disso iria acontecer. E aconteceu! Saí da escola e corri pra casa dele sem nem avisar meus pais.
  Chegando lá, Renan abriu o portão bem na hora que eu ia apertar a campainha, disse que iria ficar na calçada me esperando. Já de início achei ele um fofo, nunca tinhamos conversado antes. Sempre morri de vergonha dele descobrir que eu gostava dele. Chegando no quintal ele tirou minha mochila das minhas costas e me acompanhou para dentro de sua casa, pediu para que eu ficasse a vontade e perguntou sorrindo se eu acreditei mesmo que ele iria me ajudar a estudar. Respondi que sim. Ele, irônico, sorriu novamente. Já na sala, sentados no sofá, Renan logo passou a mão no meu rosto. Eu olhei nos seus olhos, e os vi olhando em direção a minha boca. Imediatamente ele me beijou. Eu não sabia o que fazer, era o meu primeiro beijo. O acompanhei e logo fomos nos encaixando. Suas mãos já estavam pela minha cocha. E sentia aquilo tudo mágico, estava em estado de plena felicidade. Estava sendo beijada pela primeira vez pelo garoto que eu amava. Os beijos foram ficando intensos e ele me acariciava minuciosamente, fazendo eu me sentir mais apaixonada. Do nada parou de me beijar e perguntou se eu queria ver um filme no quarto dele. Eu com vergonha dele me achar uma sem graça, aceitei.
  No quarto não tinha TV, olhei para todos os lados e nada. Perguntei onde íamos assistir o filme e ele sorriu. Disse que poderíamos fazer algo mais interessante. E novamente me deixei levar por aquele garoto que me seduzia e encantava. Deitou-me na cama, e já foi tirando minha roupa. Mesmo com receio fui deixando acontecer. Não queria desapontá-lo. Logo comecei a sentir que estava penetrando algo em mim e doía muito. Renan pedia que eu ficasse quietinha e relaxasse. Disse que iria me fazer a garota mais feliz do mundo. Fiquei assustada com aquela dor, mas suas palavras eram de conforto, de carinho, resisti e deixei. Uma hora depois o telefone tocou. Era a mãe que ele disse estar indo viajar ligando do trabalho pra saber se ele tinha jantado pois ela estava a caminho de casa. Renan mudou a partir daquela ligação. Perguntei segurando as lágrimas o porquê dele ter mentido no bilhete. Ele não respondeu e grosseiramente começou a me apressar. Seu semblante era outro. O garoto carinhoso desapareceu, e um rude e nervoso era o que estava na minha frente. Mandou eu me arrumar e ir logo embora. Disse que não era para contar a ninguém da escola que ele tinha me comido. Assim que ele terminou de falar eu comecei a tremer. Aquele termo 'comer' ficou na minha mente durante aquele noite todinha. E isso é tudo o que eu me lembro do dia em que engravidei. Aos doze anos. De um garoto que após saber que seria pai, mudou de estado com a mãe. E eu nunca mais o ví.
  Meus pais na época tiveram um susto tão grande que minha mãe adoeceu, teve depressão profunda. Não aceitava o fato de sua filha mais nova, criada dentro de uma família conservadora, pobre, com valores religiosos, ter engravidado tão precocemente. Meu pai teve um derrame. Minha irmã que na época já era casada, ficou desnorteada, com medo que eu fosse uma má influência para seu casal de filhos. Lembro que descobrí a gravidez após susessivos enjoos, mal estar e dores abdominais. Suspeitavam que eu tinha tudo, menos que eu poderia estar grávida. Após o dia que o Renan e eu transamos, eu comecei a mudar, meu comportamento ficou mais retraído. Eu pouco falava com as amigas do colégio. Em casa era um constrangimento enorme, não conseguia olhar direito nos olhos dos meus pais. E logo suspeitaram de uma doença e foi daí que as visitas ao médico iniciaram.
 Teve uma certa vez, há três semanas que tudo tinha acontecido e que eu estava mudada, meus pais por conselho de vizinha me levaram ao psiquiatra. Com eles no consultório eu não conseguia falar do real motivo de todo aquele baixo astral, olhar caído, falta de apetite, choros durante a noite. E diagnosticaram que eu poderia estar sofrendo de depressão por conta das complexidades da adolescência. Mas não era e a verdade veio ao chão tão rápida quanto foi a minha primeira vez. Minha mãe pensou em me esconder na casa de uma tia que morava no meio do nada no interior de nossa cidade, meu pai concordou e antes que todos descobrissem que sua filha mais nova estava grávida, lá fui eu.
  Fiquei tendo a ajuda da tia Lúcia até os três aninhos de Mateus. Tia Lúcia foi como uma mãe pra mim. Me ensinou a tricotar e muitas das roupinhas do meu filho tinha sido eu que tinha feito. Me sentia orgulhosa em ir construindo aos poucos suas pecinhas conforme ia aos poucos crescendo minha barriga. Meu pai mandava-nos dinheiro para ajudar com as contas do enxoval, e com o tempo, as despesas iam só aumentando.
  Após o parto, que foi feito em casa por uma parteira amiga de tia Lúcia, as contas já não davam mais pra suprir com o dinheiro que meu pai enviava. Tive que costurar para ajudar. E com o tempo, ia junto com minha tia, no comércio do centro mais próximo, vender bolos e doces. Finais de semana montávamos uma barraca pois o movimento era grande, e Mateus ia junto, ficava agarrado em mim com um pano que eu mesma tinha feito para prendê-lo e poder trabalhar. Quando completei quinze anos, estava ansiosa para a grande festa. Mas não era a minha, e sim o batizado do meu filho. Minha irmã e meus pais vieram e o batizaram. Comemoramos ali mesmo, no quintal da tia Lúcia e convidamos os conhecidos mais próximos da cidade e algumas clientes que me ajudavam com doações de carrinho, andador, banheira e outras coisas. Fui muito querida naquele lugar pequeno. Não me olhavam com rejeição, pelo contrário. Onde eu e Mateus chegávamos era só alegria, todos vinham olhar, beijar a testinha do meu filho. Perguntavam se tudo estava indo bem.
  O fato do Renan não ter assumido foi algo tão maravilhoso. Não ter que olhá-lo e ver em sua face que ele era o motivo de eu ter minha adolescência interrompida. Hoje sei que a culpa não foi só dele. Mas eu com o meu orgulho e egoísmo queria aquele filho, aquele bebê, aquele inocente ser humano do qual saiu do meu ventre só pra mim. Mateus assim que o tive em meu colo foi um amor incondicional. Eu não sabia oque era aquele sentimento, não sabia como era tão maravilhoso e mágico ser mãe. Meu amor por suas chutadas e mechidas já existia, mas nada comparado ao que senti ao tê-lo em meus braços, amamentando em meus seios.
  A cada dia, tudo oque Mateus fazia era um sorriso arrancado do meu rosto. Eu fui muito feliz naquele lugar. Tia Lúcia, uma mulher solitária, viúva. Com os filhos morando em outra cidade e com a vida feita. Ela  via em mim e em Mateus, um sopro de vida. E fazia de tudo para nos ver bem e com saúde. No dia do batizado, meus pais e minha irmã chegaram sorridente e ansiosos para conhecer pela primeira vez o rostinho do meu filho. Não tinha câmera fotográfica nem computador na época pois nossas condições não deixavam. Eles me surpreenderam com suas reações maravilhadas, felizes e amorosos com meu filho. Hoje Mateus tem onze anos. E eu penso se daqui a um ano ele terá um vida modificada como foi a minha. Se aos doze ele engravidará uma menina? Espero que não. Quero que meu filho possa ter uma vida diferente da que eu tive. Conversamos muito e tento explicar tudo a ele para que o mesmo erro não se repita.
 Hoje moro em outro lugar. Tenho uma casa linda, um marido maravilhoso. Estou casada há três anos. Santiago é moço estudado, fez faculdade. O conheci lá na cidadezinha de tia Lúcia. Foi durante as minhas idas a praça com Mateus todos os domingos. Santiago tinha ido visitar parentes e estava por lá no banco sentado, e logo conversamos pois ele não parava de brincar com meu filho, e lógico que fiquei encantada. Naquele mesma tarde eu o contei de como tinha sido mãe tão nova. Ele tinha 26, eu tinha acabado de completar 21. Ficou espantado e sensibilizado com minha história. Passou a ir nos visitar com frequência, levava presentes para meu filho e em pouco tempo me pediu em casamento. A vida me mostrou um caminho de alegria naquele pedido. O céu e as nuvens sorriam. No fim daquela tarde choveu e logo depois um arco-íris apareceu no céu. E assim a minha vida também coloriu.
  Hoje, estou grávida. Santiago, eu e Mateus aguardamos ansiosos pela vinda da mais nova integrante da família. Meus pais sempre veem nos visitar. E apesar das dificuldades que passei, hoje vivo realmente plena. Hoje sei o real sentido da palavra amar e como ela pode ter sentidos diferentes. Amor de mãe, de esposa, de filha. O caminho, as escolhas, as atitudes podem ser erradas, mas um dia aparece a oportunidade de ser feliz. E eu agarrei essa oportunidade com toda a minha força.
 Olhando para trás, percebo que os erros me levaram até a felicidade. Hoje, aos 24 anos, mãe de um rapazinho de onze e completamente apaixonada pela vida que tenho sei que o que eu fiz quando adolescente não foi o correto, interrompí uma fase. Desperdicei o melhor momento da vida. Mas fui recompensada com uma vida de aprendizado e muito amor, apesar da difícil estrada que percorrí.

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