sexta-feira, 17 de agosto de 2012

ESTRAGOS DA SÍNDROME

  Letícia era uma jovem aparentemente calma, doce e estudiosa. Morava com a mãe, uma dona de casa de 39 anos, a meia irmã, uma pirralha muito da chata de seis anos, e o padrasto, um eletricista de 55 anos cuja vida só tem sentido porque pode sustentar a família que constituíra. Às vezes, Leticia ficava na casa do pai, que havia casado novamente e tinha um filho de sete anos, tão manhoso quanto sua outra meia irmã.

Seus pais se separaram quando tinha oito anos, e a partir daí ela vivia transitando entre as duas casas. Mas se sentia invisível nos dois lugares, onde tanto o pai quanto a mãe estavam sempre ocupados com seus afazeres e, quando tinham tempo para alguém, dedicava-o a sua meia irmã (no caso da mãe) ou a seu meio irmão (no caso do pai). Os livros tornaram-se um refúgio seguro para Letícia. Quanto mais solitária se sentia, mais estudava.
No último ano do ensino médio, no colégio estadual Arruda da Silva, decidiu que iria prestar vestibular: “Vou ser jornalista”, anunciou orgulhosa. Mas o sonho de ser alguém na vida esbarrou na resistência dos pais, para os quais essa história de faculdade, curso superior, era pura perda de tempo. “Tá na hora de trabalhar”, disse a mãe, que teve que interromper o ensino fundamental para cuidar dela, fruto de uma gravidez não planejada. “O português da padaria da esquina está precisando de uma balconista”, sugeriu o pai, ele também um homem de poucos estudos. Letícia sofreu com a pressão dos pais e se preparar para o vestibular se tornou uma atividade quase clandestina.
Pode ser uma coincidência, mas começa a desenvolver um quadro de depressão e ansiedade nesse mesmo período. Um ano inteiro quase sem sair de casa, evitando as festas organizadas pelas amigas, alegando cólicas e enxaquecas para não participar das reuniões de família. A mãe reclamava das tarefas domésticas que estava tendo que dar conta enquanto ela ficava com a cara enfiada nos livros, oscilando entre complexas fórmulas matemáticas e o medo de terminar a vida onde começou, cuidando de uma família infeliz instalada em uma casa inacabada na Baixada Fluminense. Já o pai tinha uma fé cega no poder terapêutico do trabalho. “As caixas do mercadinho bairro riem à toa”, dizia quando ela chegava com sua cara de cachorro faminto na mesa. “Acho que é porque não precisam pedir dinheiro ao pai para um tênis no shopping.” Apesar de toda a pressão, Letícia mantinha vivo o sonho de ingressar na faculdade.
Chegou então o dia redentor. Tudo estava pronto para Letícia fazer a prova do vestibular: o all star branco meio encardido no canto do quarto, a velha calça jeans e uma blusa cinza dobradas em cima da cômoda e a mochila, pendurada na cabeceira da cama, continha vários lápis, canetas, calculadoras. Tomou banho, se arrumou e foi almoçar. O relógio marcava uma da tarde quando um súbito calafrio anunciou a crise que ela aprendera a diagnosticar navegando por sites médicos na calada da noite. Letícia, que teria que estar no colégio em que se faria a prova às duas, tentou ignorar os primeiros sintomas. Mas tão logo acabou de almoçar foi até o banheiro pegar uma toalhinha para enxugar os muitos suores que acompanham uma crise de pânico. Colocou a mochila nas costas, beijou a mãe, que estava vendo TV no sofá, e saiu.
- Me deseja sorte – implorou.
- Boa sorte – disse a mãe sem tirar o olho da TV de tela plana comprada em uma promoção arrasadora da Ricardo Eletro.
Enquanto aguardava o ônibus sob o sol inclemente de dezembro, os calafrios ignorados no almoço voltaram, dessa vez acompanhados de formigamentos por todo o corpo, causando-lhe sensações de dormência da cabeça aos pés. Suas mãos suavam demasiadamente e sentia todo o seu corpo frio enquanto procurava aquecer a alma com visões de uma jornalista consagrada, recebida por celebridades internacionais. Tirou a toalhinha da mochila e começou a secar as mãos.
O ônibus chegou. Leticia subiu inquieta e insegura, mas não podia perder a prova por intermédio da qual poderia ter um futuro mais amplo que o balcão de uma padaria ou a caixa de um mercadinho, fazendo de conta que não ouvia as cantadas de um português bigodudo por causa das prestações do play station dado no dia das crianças a um filho de uma gravidez não planejada. Cumprimentou o motorista e o trocador. Passou o bilhete único e sentou-se no primeiro banco cuja janela estava vaga. Tinha a esperança de que contemplar a paisagem pudesse desviar seus pensamentos de ansiedade e angústia. Mas nada diminuía aquele medo irracional, a repentina dor na nuca, o enjôo, as dores na barriga. Pegou uma folha na mochila e começou a se abanar a fim de acabar a sensação de abafamento, de clausura em si mesma, de prisão em um cotidiano que começava na cozinha comprada em doze vezes na Casas Bahia do Calçadão de Nova Iguaçu e terminava no sofá coberto por um lençol porque o marido gordo e suarento só poderia assumir um novo crediário depois de pagar o armário do quarto. O mal estar tinha tomado conta de Leticia, seus batimentos cardíacos estavam a mil, ela tentava de todas as formas controlar aqueles sintomas, mas era em vão.
Uma súbita sensação de morte a obrigou a interromper a caminhada para o futuro, a trocar as aulas de mídias contemporâneas pelo escuro do quarto, único lugar do mundo em que encontrava paz, sossego, uma tranqüilidade de mundos estáticos, de sociedades que não mudam, de famílias que carregam de uma geração para outra uma história que não vai além dos engarrafamentos da Dutra.

− Motorista, por favor, o senhor pode parar o ônibus? –pediu Leticia, de pé, com lágrimas nos olhos, tentando não demonstrar seu desespero.
− Parar aqui garota? Tá maluca? Pra onde você esta indo?
− Não estou indo para lugar nenhum, eu preciso descer, por favor, me deixe aqui – disse ela com as lágrimas escorrendo pelo rosto, o coração palpitando e as mãos apertando forte a toalhinha encharcada de um suor tão frio quanto a nascente de um rio visitado com os pais em uma época tão remota quanto a felicidade que sentiam antes da separação.
O motorista parou no ponto seguinte. Ela desceu, sentou-se no banco e enfim chorou sem a preocupação de esconder as lágrimas dos outros, sem ter de envergonhar de uma doença que ela própria só entendeu que não era frescura depois de uma pesquisa no Google. Não aceitava o fato de ter que perder aquela prova, mas a sensação de pânico era maior do que ela, do que seu sonho e suas vontades. Sair do ônibus não diminuíra seu sofrimento, a sensação de solidão só fazia aumentar à medida que os carros passavam pela rodovia, dando-lhe a certeza definitiva de que ninguém se importava com ela, de que o mundo continuaria seu funcionamento normal enquanto ela chorava e suava frio. Teve medo de desmaiar ali, no meio do nada.
Olhou para o lado e avistou uma passarela. Levantou-se, colocou a mochila nas costas e correu até perceber os degraus vazados, mostrando um mundo que tremia embaixo dos seus pés. Pegou o celular, mas o pedido de socorro foi abortado pelo velho problema de sinal de sua operadora na Baixada Fluminense. Pensou em pedir ajuda às pessoas, mas teve medo de ser confundida com uma drogada louca e preferiu enfrentar as toneladas que mantinham suas pernas presas aos primeiros degraus da passarela. Eram 13h45 quando ela chegou do outro lado da passarela.
Entrou no primeiro ônibus que parou e sentou no banco de trás. Não queria ser vista por ninguém. Não queria ter olhares de estranhamento sobre ela. Leticia sentia-se como uma louca, cheia de pensamentos desesperadores. A maldita síndrome tomava seu corpo e seus sentidos. Doía saber que não podia fazer nada para se controlar. Colocou os pés sobre o banco, abraçou os joelhos e ficou rezando. Pedia a Deus para que o ônibus fosse rápido. Seu desejo era chegar em casa. Abaixou a cabeça e rezou. De vez em quando olhava pela janela para ver onde estava. Ainda com a toalhinha nas mãos, Leticia secava as lágrimas e tentava ajeitar-se prendendo o cabelo e limpando o rosto.
O ponto chegou, ela apertou a companhia e desceu. Letícia entrou na primeira rua, virou à esquerda e pronto. A padaria do português, o mercadinho do amigo de pelada do pai, a melhor amiga da mãe comemorando o aniversário do filho mais velho com um churrasco preparado na porta de casa, o ex-namorado montado em uma bicicleta com uma velha camisa do Flamengo, provavelmente comprada em um camelô da Uruguaiana na época em que trabalhava como boy da financeira em que seu padrasto sempre pedia dinheiro emprestado. Ela cumprimentou todos sempre olhando para o chão, com vergonha das lágrimas que jorravam mais copiosas agora que tinha a certeza de que definitivamente não pertencia àquele mundo, ainda que não tivesse forças para se libertar dos grilhões que a prendiam àquela vida de merda.
Pegou a chave na mochila, abriu o portão e entrou em casa correndo. No quarto escuro, jogou a mochila no chão, atirou-se na cama e gritou o máximo que podia com a cabeça enfiada no travesseiro. Ela não só tinha perdido a tão desejada prova do vestibular, como também a coragem de enfrentar o mundo, que era o que ela tentava fazer todas as vezes que colocava os pés fora de casa. Chorou até a mãe chegar com um calmante.
- Venha, querida – disse ela, passando-lhe o copo d’água que ajudou o remédio a descer pela garganta. – Vamos ver televisão no sofá que seu padrasto acabou de comprar na Casas Bahia.

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