segunda-feira, 13 de junho de 2011

PÁGINAS SUJAS DE UM AMOR EFÊMERO

   

Era aproximadamente 5 horas da tarde. Pela calçada caminhava uma moça, trazia consigo livros e pensamentos distantes, indo em direção ao Café, seu local preferido. Essa moça chama-se: Selena. Uma mulher tímida, discreta e doce. Por conta de seu comportamento recatado, encontrava dificuldades para se relacionar. No fundo, seu maior sonho era encontrar um romance perfeito, e por conta disso, começou a recorrer aos livros, onde era possível então encontrar os finais felizes. Sua paixão pela literatura se estendeu até aos estudos universitários, formando-se em professora de Língua Portuguesa e de Literatura. Outra grande paixão era a musica, onde podia acalmar seus nervos, encontrar a paz e estar de bem com o universo ao seu redor. Morava só, vivia entre a escola, os livros, pesquisas, recitais e orquestras. Somente tudo o que correspondesse ao seu universo. Fora isso, não costumava ter uma vida social agitada, tinha poucos amigos, e todos pertenciam ao seu meio profissional.
    Durante as férias escolares, em uma tarde de sexta-feira nublada e fria, dia típico de inverno, foi até a biblioteca próxima de seu bairro onde costumava ir para pegar alguns livros e sempre parava em um café que ficava ao lado. Neste dia, Selena não iria só pegar livros e tomar algo para se aquecer, como o de costume. Algo iria ser diferente.
     Em uma mesa próxima de onde Selena estava sentada lendo, havia um rapaz. Alto, moreno, com a barba a fazer, cabelos baixos e usava óculos. Ele havia ido ali pela primeira vez, era novo na cidade, estava fazendo pesquisas para seu mestrado. E, assim como Selena, fora ao café tomar algo para se aquecer. Entre a leitura dos seus documentos e papéis, o rapaz olhou subitamente ao redor do bar, e constatou que estava bastante movimentado. voltou ao seu raciocínio, tentava fixar-se na leitura de seus documentos e nos horários das reuniões que participaria e que não poderia perder. Ao olhar para o relógio, percebeu que seu horário já estava se esgotando, levantou-se da mesa, vestiu seu blazer, pendurou a bolsa no ombro. Rapidamente pegou sua pasta e foi em direção à saída. Com a pressa, esbarrou a bolsa nas costas de Selena, no momento em que ela levará a xícara de café à boca.
    O café respingou sobre o livro que estava lendo. Sujou as páginas, ela virou-se bravamente para ver quem foi que a esbarrou, ele tentou se desculpar. Ao se deparar com aquele rapaz, os olhos de Selena em frações de segundos brilharam, porém, ela continuou se sentindo furiosa, pois o livro ficou com suas paginas respingadas de café.
    Mas continuou contida e olhando-o em silêncio. Ele ficou sem saber o que fazer, não sabia se continuava à caminho do hotel para se arrumar para a reunião, ou se tentava se desculpar pelo esbarrão. Discretamente, Selena levou às mãos a cabeça, estava bastante preocupada com o livro que não era seu, tentou com um lenço de papel secar, mas nada adiantou, pois o livro já estava manchado.
   Ele então disse algo, pediu desculpas de maneira desajeitada, pediu a moça seu telefone e disse que ligaria para dar-lhe um livro novo, pois naquele momento não poderia perder tempo, pois tinha compromisso. Ela pegou uma caneta na bolsa e anotou só o numero de seu telefone em um dos lenços de papel que ali estavam. Entregou-lhe o papel, e ele prontificou-se a dizer:
- Não se preocupe senhorita, ligarei hoje mesmo, durante a noitinha, prometo que não ficará no prejuízo, só me perdoe em ir agora, tenho compromisso e não posso me atrasar. Espero que não duvide do que lhe digo, sou um homem de palavra e não quero deixar uma moça tão bela com má impressão da minha pessoa. E, ah, como se chama senhorita? - Selena! – respondeu ela.
    Ele a cumprimentou, beijando sua mão e disse adeus. Ela nada mais disse. Ela já não pensava mais no livro, estava encantada com o rapaz. Ele partiu. E levou consigo o numero de Selena. Ela permaneceu no café, até terminar sua bebida. 

   Logo depois, foi para seu apartamento, com a imagem daquele rapaz na cabeça. Perguntava-se, se ele a ligaria realmente, pois ela sentia que gostaria de revê-lo. Chegou ao seu apartamento com um ar de felicidade, preparou algo para jantar, depois tomou um banho. Assistiu um filme para as horas passarem logo, e nada do telefone tocar. Quando já estava se ajeitando para dormir, o telefone finalmente tocou, era o tal rapaz, dizendo-lhe:

- Boa noite senhorita. – ela logo reconheceu a voz, e respondeu
- Boa noite! - Qual o nome do livro que eu acabei manchando e lhe prejudicando?
- perguntou ele. - O nome do Livro é “Crime e castigo” do Dostoievski, senhor.
- hm, livro muito bom por sinal, já o li. Tem bom gosto senhorita! - ela sorriu. - Que horas podemos nos encontrar amanhã?- perguntou ele.
- Poderia ser no final da tarde, como hoje?
- sim! por mim está ótimo, Selena.- o senhor lembra meu nome?
- Como esqueceria um nome de uma moça tão encantadora!
- E você, como se chama? - Miguel!
- Então Miguel, até amanhã no café, no mesmo horário.- Até, Selena, tenha uma boa noite!- Disse ele.- Igualmente!

Selena não dormiu aquela noite, estava aflita e ansiosa, não sabia se estenderia um papo com Miguel ou se iria somente para buscar o livro. Mas algo era certo, ele a tinha despertado um sentimento novo.

  No dia seguinte, Selena não aguentava mais esperar até a noite surgir. Arrumou-se e foi até ao café, sentou-se na mesma mesa do dia anterior, e ficou ali, aguardando Miguel. Após quase meia hora, ele chegou. A princípio, Selena não sabia o que dizer, cumprimentou-o e ele sentou-se.
   Os dois estavam bastante encabulados, pareciam-lhes que de nada sabiam, o assunto não vinha e eles começavam a sorrir um para outro, quando então, Miguel, retira de sua bolsa uma embalagem, era o livro que tinha manchado. - Aqui senhorita, seu livro novo- Ah, muito obrigada! Assim não terei problemas com a biblioteca. – e sorriu.
   Selena perguntou se costumava frequentar aquele café, pois nunca o tinha visto antes. Miguel, respondeu-lhe que não morava naquela cidade. E, que estava ali para concluir suas pesquisas, e que em breve iria embora. Apesar da timidez, Selena conversou bastante descontraída, sentia naquele homem, uma sensação agradável.
   O papo se estendeu e quando perceberam já era tarde, Selena disse que iria embora, e agradeceu-o pelo livro. Miguel, perguntou se ela estaria ocupada dia seguinte, pois ele estava ali na cidade pouco menos de uma semana e nada conhecia, e queria que ela o acompanhasse para mostrar-lhe a cidade. Ela aceitou. Eles então marcaram para se encontrarem pela manhã, para ter tempo para conhecer tudo.
    No dia seguinte, lá foram eles. Miguel, alugou um carro, e juntamente de Selena, foram passear. Passaram o dia todo juntos, e Selena, já imensamente mexida, começará então a nutrir sentimentos por Miguel. Chegando em seu apartamento bastante cansada, logo o telefone toca, era Miguel, agradecendo-a pela companhia e dizendo que adorou conhecer a cidade, que o dia foi bastante divertido e encantador. Selena, com os olhos a brilhar, sorriu. E, respondeu que também ficou bastante satisfeita com o passeio, Miguel, disse-lhe que gostou muito de conhece-la, e que gostaria de vê-la mais vezes, Selena, não sabia o que dizer, permaneceu em silêncio, sua timidez e insegurança não a permitia dizer o que estava sentindo por ele.
   Ele disse que adoraria jantar com ela no dia seguinte, pois no outro dia, ele iria voltar para sua cidade, Selena, estremeceu-se, sua respiração ficou mais forte e parecia que sua garganta estava apertada, faltava-lhe o ar. Ela perguntou se ele ficaria somente mais dois dias na cidade, ele disse que sim, e ela rapidamente convidou-lhe para jantar com ela em seu apartamento na noite seguinte.  
Ele bastante surpreso e feliz, pediu o endereço, anotou e marcou às 8 horas. Despediram-se e Selena desligou.
    Não sabia o que fazer, mal o conheceu e já o perderia, queria que aquele jantar fosse um encontro especial e uma noite intensa, que ela pudesse de alguma forma convencê-lo a permanecer na cidade, pensou até em convida-lo para morar em seu apartamento, junto com ela, mas sabia que isso seria muito precipitado, pois mal o conhecia, mas, sua presença tinha tornado sua vida mais interessante. Selena, resolveu sair e foi comprar um vestido novo, queria estar bonita para o jantar.
     No dia seguinte, acordou cedo e arrumou todo o seu apartamento, quando a noite se aproximará, tratou de arrumar a mesa, preparou o jantar, e colocou uma garrafa de champagne e duas taças na mesa, colocou um CD com musicas românticas e acendeu as velas. Tudo estava pronto! Selena, perfumada, maqueida e com o vestido novo, estava bastante sensual, como nunca antes. 

   As horas iam passando. Ela verificou se estava tudo perfeito para que nada o desagradasse. A mesa estava pronta. Estava bastante ansiosa, não parava de olhar para o relógio na parede. Selena permanecia naquela ansiedade e euforia, pois nunca tinha trago um homem para dentro de sua casa, estava sentindo que esse encontro mudaria sua vida. Seus lábios sorriam involuntariamente.
   Olhou novamente para o relógio, e finalmente, já eram 8:00. Ela ficou caminhando pela sala, indo e vindo, inquieta. Selena, resolveu olhar pela janela, e nada de Miguel chegar. As horas passaram... 8:40, e nada do Miguel aparecer. Selena achou que ele estava com algum problema, e por isso se atrasaria, continuou a esperar. Quando de repente, toca o telefone.


 - Alô? - Disse, Selena.

 - oi, Selena, sou eu Miguel, estou ligando para me despedir de você, estou no aeroporto e meu voo é daqui a alguns minuto. E, quanto ao nosso encontro, sinto muito, mas não poderei ir. Tive que partir antes do tempo, pois minha esposa ligou e disse que meu filho mais novo adoeceu, espero que compreenda... 
- Selena, não esperou ele terminar, desligou imediatamente o telefone. 

  O chão parecia que tinha se aberto, e ela despencou do céu para o inferno. Seu coração parecia ter sido esfaqueado bruscamente, sentia uma dor imensa no peito, e permaneceu paralisada, olhando fixamente para o telefone, não queria acredita que tudo o que começou a nutrir por Miguel, não passou de uma ilusão.
  Moveu-se até a mesa, sentou-se na cadeira, olhou tudo o que tinha arrumado para aquele encontro, a comida, a bebida, a musica, as velas. Estava tudo perfeito, e ele nada mais fez que iludi-la, enganá-la. De repente, um ódio imensurável consumiu-a. Encheu uma taça com a bebida que ali estava, e bebeu uma, duas, três ... muitas taças, e foi se embebedando, tentando de alguma maneira não acreditar no que estava acontecendo, não acreditar que ele não viria, não acreditar que ele era casado, não acreditar que mais um vez em sua vida, tudo tinha dado errado, e só restava-lhe a dor, o sofrimento, a solidão.
    Com um gesto rápido, jogou ao chão tudo que estava sobre a mesa. Estava furiosa, não tinha mais nada em seu peito. Seu coração tinha partido com aquele rapaz que a enganará. Chorava, gritava. Foi até ao quarto, olhou-se no espelho e viu o quanto estava bonita, mas isso só aumentou seu ódio, fazendo-a esfregar as mãos no rosto, retirando toda a maquiagem, arrebentou o colar, rasgou o vestido enfurecidamente, e caiu no chão que a pouco tinha se partido ao meio levando-a para o fundo de um lugar em que ela mais temia, pois sempre sentiu-se designada a estar lá. 

   Aos poucos levantou-se, estava com o rosto borrado e cheio de lágrimas escorrendo, voltou para a sala, uma única vela continuava acesa. Sentou-se a mesa aos soluços, e olhando fixamente para a vela, um filme passou em sua mente, as lembranças do esbarrão que sujou o livro, do encontro, da sua gentileza, sua educação, seu charme e todo encantamento que a despertará. lembrou de tudo, os mínimos e singelos detalhes.
   Apesar de tão pouco tempo, tudo foi de uma maneira tão intensa que fez com que ela acreditasse que algo poderia acontecer entre os dois. E após as lembranças, continuava a olhar para a vela acesa, limpou as ultimas lágrimas que escorriam, voltou a si, conformou-se com a dor, suspirou fundo e com único sopro, apagou a vela que iluminava sua face. Face aquela de uma mulher que apesar de toda a dor, e desilusões, continuaria a seguir em frente, pois era forte, e a solidão, já tinha tornado sua mais fiel companhia.

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